“Os orgânicos podem alimentar o planeta”

Tomate orgânico: saudável em ambiente equilibrado. FOTO: TÂNIA RABELLO

Tânia Rabello*

Conversar com dona Ana Primavesi, 92 anos, agrônoma que hoje é considerada, junto com o professor Shiro Miyasaka, pioneira na retomada a agricultura orgânica no Brasil, é ter uma aula não só de agroecologia como de humanidade e, por que não dizer, de obviedade.  É o famoso óbvio ululante que dona Ana mostra para quem está disposto a ouvi-la e a lê-la, nos livros que já editou sobre solos e agroecologia. Organicamente nutrida, a terra produz, mais até do que a agricultura convencional. Isso ela pôde provar nas inúmeras assistências técnicas que prestou no Brasil e em vários países, atendendo a agricultores que já estavam quase desistindo de tudo. E hoje a reencontram, emocionados, ansiosos por contar a grande mudança que essa agrônoma formada em Viena, na Áustria representou na vida deles e na vida de suas lavouras.

No começo do texto, usei a palavra “retomada” da agricultura orgânica. Como bem lembra dona Ana, a humanidade sempre produziu de maneira orgânica. Somente de menos de cem anos para cá, com a Revolução Verde, passou-se a usar massivamente os agroquímicos nas plantações. Aí surgiram figuras como dona Ana e várias outras do movimento orgânico brasileiro e mundial para nos fazer voltar às origens sustentáveis no trato com a terra. Sorvam um pouco desta sabedoria.

PORTAL ORGÂNICO: A agricultura orgânica é mais produtiva do que a convencional?

ANA PRIMAVESI: Depende de como a gente faz. Se a gente faz da maneira correta, melhorando o solo, a agricultura orgânica produz mais. A maneira correta é devolver a vida no solo. Tem gente que pensa que fazer orgânico é simplesmente não usar mais adubo químico e pronto. E não é só isso. Temos de devolver a vida ao solo, principalmente com matéria orgânica.

PORTAL ORGÂNICO: É possível, então, alimentar a humanidade com agricultura orgânica?

ANA PRIMAVESI: Vamos pensar que há 4 mil anos o ser humano viveu basicamente de alimentos cultivados organicamente. E há menos de cem anos é que adotamos a agricultura química. Hoje muita gente acha que sem os químicos não dá. Mas como vivíamos antes? As pessoas se esquecem disso. A China, por exemplo, sempre teve altos contingentes populacionais e sempre conseguiu nutrir milhões de pessoas, só com agricultura orgânica.

PORTAL ORGÂNICO: Por que, afinal, as pessoas acham que não dá para alimentar a humanidade só com agricultura orgânica?

ANA PRIMAVESI: Porque a agricultura convencional estragou o solo e o solo não produz se estiver estragado. E, para recuperá-lo, leva pelo menos uns quatro a cinco anos.

PORTAL ORGÂNICO: O alimento orgânico é mais nutritivo do que o convencional?

ANA PRIMAVESI: Acho que de qualquer maneira sim. Porque no orgânico você tem a natureza, por si, atuando. E, no químico, você simplesmente tem uma ideia de produzir aonde não há mais condições naturais, porque o solo está estragado ou no mínimo as lavouras estão sendo cultivadas com uma quantidade bem menor de nutrientes que as plantas efetivamente precisam. Uma planta precisa de no mínimo 45 nutrientes para se desenvolver e produzir. E a agricultura convencional dá no máximo 15 nutrientes para as plantas. O resto fica de fora. E olha que nem sempre esses 15 nutrientes são integralmente utilizados nas lavouras convencionais. Muitas vezes são usados apenas seis ou sete nutrientes.

PORTAL ORGÂNICO: Quais nutrientes seriam importantes e ficam de fora?

ANA PRIMAVESI: O cobre, por exemplo, é muito pouco dado às plantas na lavoura convencional, porque os técnicos acham que as necessidades das plantas em relação ao cobre são mínimas. São mínimas, realmente, mas não menos importantes. O pouco pode querer dizer que a planta precisa menos de determinado nutriente simplesmente porque ele é extremamente potente. É o caso do zinco, do boro, do cobre.

PORTAL ORGÂNICO: A sra. podia citar alguma situação em que auxiliou agricultores a deixarem os agroquímicos e partirem para a agroecologia?

ANA PRIMAVESI: Lembro dos agricultores do norte de Minas, na região de Diamantina. Eles me procuraram, há cerca de 15 anos, porque estavam absolutamente desanimados, quase falindo, porque a cada ano a terra respondia menos às adubações. E, no fim, eles já não sabiam mais o que fazer. Nós começamos melhorando o solo, melhorando a qualidade dos nutrientes que eram colocados no solo. Demoramos uns quatro a cinco anos, mas agora eles produzem com fartura e constantemente. Há uns três anos fui lá novamente e vi como eles estavam felizes com a opção orgânica. A recompensa vem. O problema é que ela não é rápida e muitos desistem.

PORTAL ORGÂNICO: O que a sra. acha da propaganda massiva das empresas de adubos químicos e agrotóxicos diretamente junto aos agricultores?

ANA PRIMAVESI: O problema é que a indústria de agroquímicos e adubos sintéticos não pode dizer para o agricultor que ela é a única que funciona. Porque o agricultor vê que isso não ocorre na prática. Há a opção – excelente – da agricultura orgânica. Ele parte para a experiência orgânica e vê que dá certo e contra isso a indústria não tem argumentos, até porque quando o sistema está bem encaminhado produz mais e com menos custo. Então, não é tão fácil assim para essas corporações.

PORTAL ORGÂNICO: A sra. é a sócia número 1 da Associação da Agricultura Orgânica de São Paulo. Conte um pouco esta história.

ANA PRIMAVESI: Sinceramente, foi casual. Eu estava na fila para assinar a filiação à associação, como todo mundo. Como a fila estava grande, fiquei de lado, esperando até que acabasse. Quando chegou minha vez, não tinha mais espaço, nem folhas extras, para assinar. Aí pensei: “Não posso mais entrar na agricultura orgânica porque não tem lugar no papel.” (Risos). E o Shiro Miyazaka (idealizador da agricultura natural no País e fundador da Mokiti Okada) estava lá, pertinho, olhando a situação. De repente, ele sacou do bolso uma folha, a página número 1, e me deu para assinar. Foi assim que virei a “membro número 1” da AAO-SP.

*Esta entrevista foi originalmente publicada no Portal Orgânico (www.portalorganico.com.br), no dia 13/6/2012
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